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Publicado em 16 | 04 | 2012 às 21:35

Como nos velhos tempos

BUMBO - Primeiro Desfile de Bandas e Fanfarras reúne, na UEM, mais de 400 instrumentistas do gênero em extinção nos grandes centros

Texto por: Ana Luiza Verzola - publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, sábado, 14 de abril de 2012

Amanhã a meninada toda pode se assanhar para ver a banda passar na UEM, no Primeiro Desfile de Bandas e Fanfarras. As apresentações saltam da letra da canção famosa de Chico Buarque (“A Banda”, vencedora do Festival da Record de 1966) para a realidade. Ao todo, serão 400 músicos da região, que vão tocar para o público gratuitamente. O organizador do desfile, Ricardo Viana, diz que falta incentivo e eventos que promovam isso. “Talvez, as pessoas se inspirariam e voltariam a praticar”, acredita.
A proposta do desfile surgiu de uma reivindicação de fora para que eventos do tipo fossem fomentados na cidade. “Fanfarras de outras cidades ligavam atrás, estamos organizando desde novembro o evento. É um processo árduo”, diz. A expectativa é incentivar os músicos envolvidos. “Precisamos mostrar o trabalho deles, para que o público também participe”. Segundo Viana, essas apresentações podem instigar as crianças a aprenderem a tocar um instrumento musical.
Fugindo do tradicional desfile pelas ruas, o evento acontecerá dentro da UEM, próximo à Biblioteca Central a partir das 15h. “Escolhemos a universidade porque não há na cidade um espaço para realização anual desses eventos. Pensamos em levar para a rua ao lado, mas o processo era burocrático. Fora que a segurança será bem maior”, conta. O desfile é uma homenagem a Tiradentes, que, de acordo com Viana, também está caindo no esquecimento.
Após tentar contato com cinco escolas, convidando-as para participar, que representará Maringá na programação divulgada é uma das Atléticas da UEM. “Convidamos porque temos atléticas muito boas, então este ano eles vão representar a UEM e Maringá no desfile”, diz. O mais importante, para o organizador, é divulgar o trabalho das bandas, maestros e coreógrafos, motivando as autoridades a investirem na montagem de fanfarras.
Em Jandaia do Sul (43 km de Maringá), a Fanfarra Tradicional Simples da cidade faz parte de um projeto social ligado à Fafijan (Faculdade de Jandaia do Sul), desenvolvido em 1999. O grupo se apresentará com 50 integrantes, com idade média entre 12 e 16 anos, coordenadas pelo instrutor Paulo Márcio Salvador, 40, que tem contato com bandas desde que tinha nove anos. Embora se apresentem em aproximadamente 10 eventos por ano, a batalha é grande para manter o grupo em evidência. “A gente luta para estar sempre se apresentando, para não deixar essa cultura de fanfarra acabar. As pessoas gostam, às vezes se emocionam”, diz. Em alguns casos, ele comenta que há jovens que nunca viram uma fanfarra.
Lidando especificamente com adolescentes – “exceto por uma jovem senhora de 78 anos que participa conosco desde o início” – a proposta do projeto é educar por meio da música. “De uma certa forma você acaba disciplinando a criançada. O contato com os instrumentos e com a música é de grande benefício para os participantes”, segundo Salvador. “Não só desenvolve a parte motora, mas também a parte intelectual. Eles têm de estudar partituras, estar ligado de certa forma à cultura brasileira, e isso tudo desenvolve a criança como pessoa”, observa.
Jandaia do Sul tem população estimada pelo IBGE em 20 mil pessoas. Paulo Márcio Salvador acredita que cidades de menor porte, como Jandaia, têm um publico mais fiel às apresentações de rua. “Estamos participando de eventos em cidades menores. Inclusive, nossa última participação foi em um concurso na cidade de Rolândia, depois fomos para Santa Fé. Em cidades maiores, não recebemos tantos convites”, diz.
Morando em São Paulo durante boa parte da vida, a jovem senhora que integra o grupo, Maria Reche Fuline, 78, nunca tinha ouvido o trompete de uma fanfarra, instrumento que só veio a conhecer quando chegou a Jandaia do Sul. “Meus netos foram participar e eu fui ver como era. Me deram um surdo para segurar e, de repente, disseram que eu tocaria. Fiquei desesperada”, lembra. Dona Maria, como é chamada, foi aprendendo aos poucos e provando que não há idade para descobrir novos dons. “Fanfarra, pra mim, foi amor à primeira vista”, conta. A enfermeira aposentada nunca mais largou o instrumento desde então, e, ano após ano, vê diversos jovens ingressando no grupo. “Mas eu continuo sendo a mais nova, né?”, brinca. “Em São Paulo eu não via esse tipo de coisa, trabalhava o dia inteiro e era bem corrido”. Os netos hoje já não participam, mas ela diz tocar por todos eles. “É bom demais”.

Projeto social
Há outras cidades que mantêm projetos sociais com fanfarras. Música Sem Fronteiras é também o nome da banda marcial de Santa Fé (62 km de Maringá). O grupo é formado por aproximadamente 70 pessoas, regidos pelo maestro João Carlos Fioroto, 43, há dez anos no ofício. Em 2009, eles deixaram o posto de fanfarra. “O sonho de toda fanfarra é virar banda, e nosso objetivo é evoluir cada vez mais”, diz.
Os ensaios são feitos três vezes por semana. “O objetivo maior é social, trazer a molecada para a música, para dar uma luz. O ideal seria formar músicos, queremos ser reconhecidos”, enfatiza.
Fioroto conta que, em cidades pequenas, a tradição da fanfarra ainda não morreu, e que conseguir apoio é uma tarefa mais fácil. “A gente vê que há uma rejeição muito grande na área da música, em cidades maiores. Em cidade pequena o pessoal pode não ter muita informação, mas eles sentem vontade de participar”, observa. “O engraçado é que em centros maiores deveria ser mais fácil conseguir recursos, mas não vemos um incentivo maior por parte das autoridades”, pontua. Buscando garantir essa tradição sempre em evidência, anualmente a Copa Enviro-chemie de Bandas e Fanfarras de Santa Fé é realizada para dar oportunidade às bandas.
“Hoje, não contamos com tantos festivais no Estado, e ninguém vive só de ensaio. A gente precisa sair, passear, conhecer gente nova e trocar informações. É o meio que a gente acha que está resgatando isso no Paraná”, explica. Retorno financeiro, ele diz que não há, mas que mesmo assim é gratificante. O evento em Maringá servirá também para dar visibilidade aos participantes. Os instrumentos mais utilizados pelos grupos são: bumbo, atabaque, caixa, tarol, surdo, prato, lira, xilofone, marimba, glockenspiel, tímpanos e cornetas. As bandas e fanfarras convidadas são patrocinadas ou pela prefeitura de suas respectivas cidades ou vinculadas a empresas e instituições.